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domingo, 7 de dezembro de 2014

Poliamor saindo do gueto

Apesar das dificuldades que persistem, me sinto realizada hoje por ter literalmente dado "minha cara a tapa" em defesa do Poliamor: por ter me assumido poli publicamente, por ter tido a iniciativa de escrever um blog sobre o tema, estar escrevendo um livro, estudando e vivendo esse modelo de relacionamento não mono.

Muitas foram as críticas, as caras de desprezo e desaprovação, as piadas machistas, os debates revoltantes com moralistas retrógrados, com dogmáticos, muitas horas, dias, anos de dedicação...mas agora estamos assistindo um momento de expansão e procura a respeito deste movimento. O número de pessoas interessadas em conhecer o poliamor, o aumento de indivíduos que participam dos encontros, o aumento de estudiosos no tema e a melhor aceitação dele nos meios jurídicos, acadêmicos, literários, além da procura que temos tido da mídia (constante), etc.


Tudo isso me faz entender que esse momento é de vitória! Muitas outras lutas virão e teremos que continuar a encara-las, mas nesse INSTANTE quero apreciar o que já conquistamos e acariciar minhas cicatrizes com a certeza de que nada foi em vão.

Clique na imagem para ver a matéria que saiu no UOL Tab!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PRIORIDADE?

Acabei de me dar conta de que já estou há quase dois meses sem postar...meu blog andou meio abandonado, mas a vida muito tumultuada. Nem sempre damos conta de fazer tudo, né? Prioridades!
E foi sobre isso que andei refletindo nos últimos dias eque me inspirou a escrever agora: PRIORIDADE. O que vem a ser prioridade em um relacionamento poliamoroso?




Bem, atualmente me encontro em quatro relacionamentos - com intensidade, organicidade,
afetividade, envolvimento, expectativas diferentes. Um deles, que já foi citado diversas vezes no blog, é o Rafa e estamos juntos há mais de três anos: já fomos ficantes, namorados, casados e agora namorados novamente. Nosso amor é profundo e fundamentado na amizade, companheirismo, afinidades e cumplicidade. Meu outro relacionamento também longo -  acho que dura uns dois anos (contando a parte assexuada da relação) se consolidou à distância. Contudo, mesmo morando em estados diferentes e tendo que enfrentar as dificuldades impostas pela distância, existe um amor, um carinho e um tesão enorme entre nós dois. Não imagino minha vida sem eles!



Os outros são bem mais recentes, questão de poucos meses. Um deles eu conheço faz alguns anos; o outro, ha bem pouco tempo.. E aqui começa a complexidade sobre a qual venho focado minha reflexão.

 A outra pessoa com quem comecei a me relacionar recentemente é o Will, ele me foi apresentado pelo próprio Rafa  há quase três anos.  Nesses anos de convivência nós ficávamos quase todas as vezes em que nos víamos, chegando ao ponto de termos uma convivência e uma afetividade mais estreita...porém, como tínhamos muitas divergências importantes, nunca passamos disso. Só que, como a vida não é uma linha reta, nos reaproximamos nesses últimos meses. Primeiro porque uma terceira pessoa nos fez relembrar um do outro (uma situação complicada da qual não tenho como falar nada além disso), voltamos a conversar pelo face com mais frequencia e, quando eu fui me mudar de cidade, resolvemos nos despedir. Obviamente ficamos e dessa vez não paramos mais de ficar. Fora a questão sexual que, em minha visão sempre foi muito legal,  nossa amizade foi fortalecida pelo apoio e carinho que ele manifestou em vários momentos difíceis que passei. Quando há dois meses me vi em uma situação bastante desesperadora, o Will foi uma das pessoas que mais me acolheu e desde então estamos morando juntos na casa de seus pais. Incrivelmente a convivência se mostrou (e se mostra) bastante prazerosa e enriquecedora. Buscamos nos ajudar em tudo, de trabalho a problemas com outros relacionamentos. As afinidades são muitas e estamos conseguindo lidar bem com as divergências. Há aproximadamente duas semanas percebi que estava apaixonada!
Temos planos de ter a nossa própria República! ;)




Por fim, o relacionamento mais recente de todos, o Ádamo -  um menino muito mais novo do que eu  -   está sendo muito descontraído.  O lindo está tendo sua primeira experiência poli comigo. Ele é uma graça, super divertido e o sexo...é incrível! Sinto por ele algo que não sinto por nenhum dos outros, uma necessidade de cuidar, de orientar, provavelmente devido a diferença de idade. Existe muito carinho na  nossa interação, mas acho que é de comum acordo que não é de nosso interesse extrapolar o que já existe no presente.

 Mas agora, como tratarei de prioridade entre relacionamentos totalmente diferentes uns dos outros? Não vivo com um o que vivo com o outro, não tenho o mesmo sentimento por todos. As pessoas são únicas, as histórias também, assim como a forma e a "intensidade" dos afetos e dos desejos.
Complicado isso! Eu que sempre quis prioridade, agora percebo como ela só faz sentido se vier naturalmente, sem
regra e cobrança. Não me furtarei a dar prioridade a quem já me cedeu, principalmente se é por uma causa justa e necessária. No início da minha experiência poli eu neguei prioridade ao meu antigo parceiro, depois cobrei de outro...e nesse momento abre-se um " mundo novo" pra mim, de novos sentimentos, novos pensamentos.
Quanto mais abraço minha identidade poli, mais percebo o quanto não refletia sobre meus afetos, desejos, sobre minha subjetividade na relação com o outro. Posso afirmar, que tem sido uma grande auto-descoberta, além de poder explorar o universo das possibilidades e subjetividades alheias. Algo muito positivo que tem me ajudado a ser mais empática, não só com meus relacionamentos e amizades, mas também com as limitações dos que me cercam de alguma forma. 





Sharlenn

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Diferença entre Poliamor e Relação Aberta (R.A.)


Muitas pessoas confundem poliamor com o modelo de relação não monogâmica denominado relação aberta. Contudo, esses dois conceitos não podem ser usados como sinônimos, uma vez que representam, de fato, formas de relacionamento distintas.

A chamada relação aberta é, em geral, um vínculo entre duas pessoas – que compõem o casal – mas que possui a prerrogativa de permitir relacionamentos com outras pessoas externas à relação. Normalmente, há uma regra explícita de que todo o envolvimento “extrarrelacionamento” deve ser exclusivamente sexual.

Dentre as configurações mais comuns de R.A. temos as relações paralelas, em que os parceiros simplesmente saem para sexo casual com outros indivíduos; temos o casal que namora uma terceira pessoa (sendo o casal sempre prioridade); há também casais que fazem acordos de só poderem ter relações com outras pessoas sob o consentimento da outra parte; de só poderem ter sexo com outros em viagens, etc. Raramente os casais que vivem uma relação aberta permitem ao parceiro (a) um envolvimento afetivo fora do casal estabelecido. De qualquer forma, o que marca a relação aberta é o estabelecimento do casal como prioridade: existe o casal e existem as outras pessoas com as quais eles (juntos ou não) têm, sobretudo, sexo.

Já o poliamor, entendido aqui como um fenômeno social (ou seja, que surgiu na sociedade a partir de uma necessidade – muitas vezes inconsciente – dos indivíduos) possui uma grande variedade de arranjos e possibilidades. O poliamor é um modelo de relacionamento não monogâmico que se identifica pela não exclusividade afetiva-sexual entre as partes e a igualdade de possibilidades entre todos os envolvidos: se há somente abertura sexual, não se configura como poliamor; se apenas a uma das partes é consentida a liberdade de poder se envolver com outras pessoas, estamos tratando de um caso de poligamia e não de poliamor. Fora isso, o poliamor pode se configurar em relacionamentos em grupo – quando todas as pessoas envolvidas possuem relações entre si; pode ser que as partes de um casal tenham outros relacionamentos afetivos-sexuais ou mesmo só sexuais, ou alguns afetivos e outros sexuais. Não há uma regra que defina a configuração dessas relações: cada relação poliamorosa constrói suas próprias regras visando às necessidades específicas das pessoas envolvidas.

Outro fator comum ao poliamor e que não é visto no relacionamento aberto é a questão da família não nuclear. Ou seja, muitos poliamoristas que vivem em grupos querem casar e ter filhos, só que, nesse caso, a união não é somente entre duas pessoas e os filhos geralmente são pelo grupo. Já os que mantêm uma relação aberta e querem constituir família entendem que a família é nuclear – pai, mãe e filhos do casal – não tendo os demais parceiros sexuais qualquer ligação com a constituição da família ou vínculo com os filhos do casal.

Assim, é coerente concluir que, embora essas duas formas de relacionamento pertinente sejam não monogâmicas, no relacionamento aberto o casal é prioridade, a família (caso seja constituída) terá a base nuclear e, na grande maioria das vezes, a abertura desses casais é puramente sexual, havendo, inclusive, acordo de fidelidade afetiva. O poliamor é mais abrangente em possibilidades, em formatos. A legitimidade de poder amar várias pessoas concomitantemente, viver mais de um relacionamento afetivo-sexual e a possibilidade de igualdade entre as partes envolvidas são algumas de suas principais características.




Há mais de três anos em uma relação poliamorosa como meu gato, Rafael Machado! ;)


Sharlenn

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Amor, Poliamor...


Bem, como muitos sabem, eu tenho 31 anos. Desses, há 16, 17 vivo relações afetivas-sexuais. Namorei monogamicamente durante 5 anos, depois me casei (sendo a maior parte desse casamento mono e depois RA), o que durou cerca de 9 anos. Há mais de três anos conheci o poliamor e, a partir de então, passei a ter apenas relacionamentos poliamorosos. Como no poliamor um relacionamento nao exclui o outro, minhas experiências sexuais e meus relacionamentos amorosos mais que quadruplicaram nesse pequeno período. Assim, posso dizer, por mais estranho que possa parecer, que minhas experiências de relacionamento são muito mais polis do que monos.


De qualquer forma, me sinto apta a analisar ambos a partir da minha vivência. E por conseguir analisar, comparar, racionalizar, sei que nunca mais voltarei a ser monogâmica. Afinal, eu SOU poli. É assim que me sinto e me entendo, é o que defendo como forma superior de relacionamento.

E nesse momento pretendo analisar uma questão em particular: o amor. Obviamente que eu amava meus parceiros monogâmicos, mas agora identifico elementos como posse, insegurança, ciúme, egoísmo entranhados no amor que eu sentia. Sentimentos que trouxeram vários conflitos internos e externos em minha vida.

Diferentemente das minhas experiências monogâmicas, os relacionamentos poliamorosos que tive (e os que tenho) me fizeram enxergar o amor como algo muito mais pleno, incondicional. Todos os que amei desde então, de alguma forma, ainda continuo amando. Se o relacionamento nao terminou porque as pessoas mudaram e se tornaram estúpidas, falsas, etc., aos meus olhos, eu nao tenho motivo para deixar  de ama-las.

Percebi que muitas vezes os relacionamentos nao acabaram por falta de amor, mas por incompatibilidades percebidas com o tempo, distancia, projetos diferentes de vida, entre outras coisas que nao me fizeram deixar de gostar dx parceirx em questão. Por isso continuamos amigos, amigos coloridos, ficantes. Procuro ter o que posso ter de melhor com cada uma dessas pessoas e isso realmente me faz bem, não deixamos de existir uns para os outros, não deixamos de ter vínculos.
Agora vivo uma situação que me demonstra com ainda mais clareza o que eu já vinha percebendo: o amor nas relações polis tem a potencialidade de nos fazer mais generosos, mais “altruístas”, o sentido de querer o bem dx outrx  é amplificado – não busco o que é melhor pra mim submetendo a felicidade de meus parceirxs à minha vontade, aos meus caprichos e desejos.



Amo muito alguém que pode não mais estar presencialmente na minha vida daqui ha um tempo. Foi uma escolha de vida delx, algo que pode lhe proporcionar uma vida melhor, mais rica e plena. Bem, o meu desejo egoísta é que essa pessoa continue por perto, mas ele é absurdamente menor que a minha felicidade de ver a  possibilidade de uma vida melhor para essa pessoa. Eu a amo tanto, mais tanto, que o fato de ela poder viver melhor, mesmo longe, me traz felicidade.
Claro que sofrerei a ausência, a saudade, mas nada disso apaga ou diminui os momentos que vivemos e o amor que sentimos. Se é amor tem que libertar, tem que permitir que os indivíduos sejam  livres para viverem suas vidas e fazerem suas escolhas. Ser feliz em um relacionamento as custas dos sonhos, projetos de quem se ama... não me parece amor. Para mim, hoje, amor é o que sentimos quando vemos quem amamos realizado e feliz.

Mais uma vez: o amor não encarcera, o amor liberta!

Sharlenn

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Poliamor ganhando visibilidade!

Depois de duas semanas ótimas cheias de ótimas notícias e conquistas polis - O encontro Poli de agosto contando com mais de 200 pessoas, reportagem no Globo, Na Catraca Livre, Na Isto é, propostas de mais entrevistas, etc. -  hoje acabei de receber uma  proposta que me deixou muito entusiasmada e  eu
gostaria de compartilhar com todos os polis e simpatizantes!!


Acabei de receber um telefonema de uma editora de uma revista feminina perguntando se eu não teria interesse em publicar na revista X o tipo de texto que posto no meu blog!!!!
Ela disse que a intenção é montar uma coluna chamada: "amor e sexualidade da mulher contemporânea"...!!!
Como ainda não está certo, não posso entrar em mais detalhes, mas isso é um grande passo na minha vida e na divulgação do Poliamor!!! 


 Foto do ultimo encontro unificado de poliamor em agosto/ 2014. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Encontro sobre Poliamor no Rio nesse domingo!

CATRACA LIVRE:


O Parque Eduardo Guinle, em Laranjeiras, recebe no próximo domingo, dia 24, às 15h, um encontro sobre o poliamor. O evento irá reunir os adeptos da prática e também os que desejam conhecer o tema.
O evento será dividido em dois momentos, uma onde as pessoas que desejarem irão se apresentar e falar sobre suas vivências com o poliamor e um outro dedicado a socialização.  E, a roda de conversar irá passar por dois temas, “o que é o poliamor?” e o “o poliamor e feminismo hoje”.
Mais informações sobre o evento na página do Facebook.
JORNAL O GLOBO ONLINE
RIO - Quantas pessoas cabem numa relação afetiva? Para os adeptos do poliamor - relações não monogâmicas consensuais - não há limites. Praticá-lo, entretanto, não é exatamente fácil. É preciso lidar com questões como ciúme e preconceito. Para debater a melhor forma de enfrentá-las, praticantes e interessados se reunem, neste domingo, no "Encontro público sobre poliamor", no Rio de Janeiro.

- A gente enfrenta muito preconceito e, no caso das mulheres, a carga de discriminação é maior ainda - afirma Eduardo, que será mediador do evento e prefere não ter o sobrenome revelado
.

O evento começa às 15h, no Parque Eduardo Guinle, em Laranjeiras. Na programação está um debate sobre o conceito de poliamor, a partir do compartilhamento de experiências pessoais, e a roda de conversa "o poliamor e o feminismo hoje".

Ele conta que outros encontros como este já foram feitos e chegaram a reunir cerca de 70 pessoas. Desta vez, Eduardo acha que o número de participantes passará de cem. Isso porque a comunidade dedicada ao tema no Rio vem crescendo, pelo menos, no Facebook. Se até janeiro deste ano eram 194 participantes, hoje são 444.

- As pessoas já estão aceitando mais este estilo de vida. Com o encontro, o objetivo é um ajudar ao outro. Muitas vezes, as próprias pessoas sentem preconceito por achar que fazem algo errado. Mas vamos mostrar que elas não são nenhum marciano. Não há regras que obriguem ninguém a ser monogâmico.


Read more: http://oglobo.globo.com/sociedade/encontro-sobre-poliamor-debate-relacoes-nao-monogamicas-no-rio-13677221#ixzz3B2RhmhK9

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Relacionamentos polis à distância


Atualmente possuo dois relacionamentos “sérios” (detesto essa palavra...) e os dois são à distancia, pior, em lugares diferentes. Bem, eu nunca gostei dessa idéia de manter relações afetivas-sexuais nesse formato, achei que não daria certo para mim, pois, aprecio ter as pessoas com que me relaciono por perto.
Enquanto um era à distancia , mas eu morava com o outro,  eu considerava que só conseguia suportar a ausência física  (por mais de 1 ou 2 meses) do parceiro que estava longe porque podia ter o outro por perto.

Agora eu me vejo em uma situação totalmente nova e, confesso, não sabia se ia
conseguir lidar com ela. Alem dessa novidade, minha vida também está passando por transformações profundas...o que me deixou ainda mais reticente.


Primeiro pensei o que eu acho viável para que se mantenha qualquer relacionamento à distancia  - sendo ele poli ou nao . Nisso constatei o que já acontece com meu relacionamento mais antigo: manter contato por internet, Whatzzap e telefone, ter uma certa constância de momentos presenciais e aproveitá-los ao máximo, reafirmar o amor, fazer planos, ser presente mesmo estando distante. Faz sentido e tem dado certo.



Depois refleti que, alem de ter duas pessoas  que adoro e com quem vou trocar todas essas “fofurices” além de ter  certo contato presencial, eu ainda por cima sou poli! Ou seja, nao estou “condenada” a ter uma vida sexual escassa. Posso sair e ficar com pessoas, me interessar por elas, quem sabe até um novo relacionamento? RS (Não, não é o que eu quero no momento, mas as possibilidades estão sempre abertas...). Fora isso,  só o fato de não haver ciúme ou insegurança (que bom que elxs tenham outras pessoas!!), acho que um relacionamento poli à distancia possa dar muito mais certo do que um mono na mesma condição.

Bem, mas como minha experiência nesse caso ainda é muito recente, vou avaliando aos poucos...

E vocês acham que pode dar certo??

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ou se adapta ou morre?

Dentro da estrutura "funcional" dessa colônia chamada Brasil compete às autoridades auto-impostas ou inadequadamente eleitas, aos "especialistas" de todo tipo (formalmente legitimados pelo sistema), definir, regular,  controlar, "disciplinar" a vida dos indivíduos. Assim, quem não se "enquadra" no modelo de "cidadão são, "normal", "produtivo" - criados e impostos pelos "especialistas"- é julgado, inferiorizado, ridicularizado, e, não raro, punido.

Tudo o que é diferente, que não se compreende (ou que não se torna vantajoso de ser compreendido), torna-se um enigma e uma ameaça. Indivíduos que fogem aos "padrões" são tidos como adversários, opositores. O diferente é inaceitável porque é temido, porque carrega em si a possibilidade de algo novo, de reflexão e questionamento do dogma da naturalização dos valores e estruturas atuais.



Tragicamente, os "não enquadrados" acabam, ou interiorizando grande culpa por não ser quem queriam que eles fossem, ou se vêem privados da liberdade de existirem tais como são, como se construíram. A privação de liberdade é traduzidas em violência psíquica, física e em sanções variadas. 

Essa é a nossa sociedade -  gerida  pelo alicerce capitalista, moralista, opressor e hipócrita. Uma cultura que reprova o diferente, que o criminaliza (de forma implícita ou explícita), acaba tornando inviável a existência do mesmo.

A pressão é torturante, a exigência por adequação massacra a individualidade de quem ousa pensar autonomamente, de quem assume valores que fazem sentido, não com a hipocrisia do status quo, mas com  a realidade concreta, factual e aos desejos sinceros de igualdade, fraternidade e expansão.

Como diferenciar Virtude, Transgressão, "Pecado", "Vontade de Potência", Crime? Quem é apto a decidir? A julgar a sanidade? Que lei? Que justiça? Quem nessa sociedade medíocre e gananciosa saberia enxergar a distinguir o Ubermansh de um verme que deve ser esmagado? 

Não Monogâmicos, Homossexuais, Bissexuais, Transexuais, Negros, Feministas, Socialistas, Anarquistas, Trabalhadores que apenas subsistem, Artistas que nunca serão reconhecidos...Todos nós estamos na mesma gaiola, uns já perceberam, outrxs nunca perceberão...mas somos VÍTIMAS  desse mundo cruel e dessa sociedade assassina. 

Todos os dias é a dor, o desespero, a angústia, a culpa, a pressão que mata milhares de nós. 

A burguesia cospe na nossa cara e muitos de nós ainda a aplaudimos... queremos ser como eles, ter os mesmos direitos...ao invés de lutar para que NINGUÉM nunca mais seja trancafiado em uma gaioloa,
mesmo que dourada... 





Sharlenn

domingo, 3 de agosto de 2014

Amor não é "status" de relacionamento

Como já falado anteriormente aqui no blog, eu possuía um casamento poliamoroso há quase três anos.
Eu e meu parceiro vivemos um casamento muito feliz, temos muitas afinidades em comum, muitas similaridades e compatibilidade. Há e sempre houve entre nós respeito, admiração, amizade e companheirismo.

Há algumas semanas atrás percebemos que, por uma série de motivos circunstanciais, nossa convivência já não nos potencializava, estávamos nos prejudicando mais do que nos ajudando. Essa percepção foi dolorosa, sofrida. Tentamos ignorar esse fato, o que foi desastroso e, por fim, nos afastamos.






Em todo esse meio tempo, mantive meu outro relacionamento (pessoa que me ajudou muito nesse processo todo) e até comecei algo novo com outra pessoa.  Porém, ninguém no mundo poderia substituir o amor e  a dor da separação que eu estava sentindo: ninguém substitui ninguém, uma relação não toma o lugar da outra, as pessoas são especiais em nossa vida por QUEM elas são. Obviamente, o fato de eu ter recebido apoio de outros relacionamentos e amigos, minimizou o sofrimento (mais uma vantagem do Poliamor a meu ver, os amores se somam, não se excluem, a compersão quando substitui o ciúme, melhora a qualidade dos relacionamentos), mas, de forma alguma, preencheu o vazio deixado pelo término do meu casamento.

Entretanto, a saudade, o amor, a admiração, o carinho, o querer bem persistiam. Voltamos a nos falar e reafirmamos nossa grande amizade...Um dia marcamos de ir ao cinema, conversamos, choramos, conversamos mais e meu ex marido e querido amigo me pediu em namoro - o que eu prontamente aceitei!




Tenho para mim que as pessoas em geral veriam tal fato como um retrocesso em nosso relacionamento,  uma constatação da diminuição do nosso amor. Porém, para nós significou que o nosso amor está para além de qualquer denominação, de um modelo linear de vida e relacionamento. Compreendemos que nas circunstâncias atuais morarmos juntos não é a melhor opção, só isso.

Todos esses eventos me fizeram refletir muito. Mais uma vez experencio as vantagens de ter escolhido para minha vida o Poliamor como modelo de relação, de vida. Quando o sentimento, é de fato, mais importante do que os papéis sociais, do que as idealizações do amor romântico, podemos desfruta-lo de forma muito mais leve, livre, honesta. Podemos dialogar, mediar, escolher como viver em cada momento da vida, de que forma podemos potencializar o amor e estreitar os laços.

Assim reafirmo, AMOR NÃO É STATUS DE RELACIONAMENTO, STATUS DE RELACIONAMENTO NÃO É AMOR!

Sharlenn



terça-feira, 29 de julho de 2014

Compartilhando

" Nada contra monogamia, até tenho amigos que são. Mas não precisa ficar mostrando assim em público, né? Como vou explicar para as crianças? "Ele obriga a namorada a desejar somente a ele, como se fosse realmente possível, sob punição de rompimento total. Isto é, usa o afeto como ferramenta de restrição de liberdade." Não dá, né? " ( Bruno Burden)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Por um mundo sem opressão

Vivemos em uma sociedade onde quem não se encaixa nas regras e padrões do status quo, invariavelmente sofre algum tipo de discriminação e/ou opressão. No meu caso, ser mulher, bissexual e poliamorista faz com que eu sinta uma rejeição enorme pela maior parte das pessoas que me conhecem (fora da "bolha" em que vivo), no trabalho, na família, na vizinhança...

Quando reflito sobre essa rejeição, percebo que os motivos são completamente irracionais - nunca fiz mal a nenhum deles, aliás, sou normalmente uma pessoa bem empática e " boazinha"...ainda assim, não gostam de mim porque sou diferente, errada (aos olhos deles), não vivo a vida que a sociedade impõe aos seus "carneirinhos". Pior do que isso: ouso ser quem sou, dizer quem sou e defender os direitos de quem é oprimido.


Quando decidi enfrentar os valores vigentes e as normas sociais de nossa sociedade doente, sabia que teria uma luta muito árdua pela frente. Somado o que já disse sobre mim ao fato de eu ser mãe e professora de filosofia/sociologia, os desafios são ainda maiores. Mas que escolha eu tinha? Continuar vivendo um personagem, uma vida de mentira ou me afirmar como sou e lutar para que outras pessoas pudessem fazer o mesmo sem tanto sofrimento?


A minha constatação é que não sou EU que devo mudar, e sim a hipocrisia, o individualismo, a competição e o mercado. Sei que sozinha sou muito pouco, quase nada para conseguir alguma mudança relevante; mas juntos, todos os oprimidos, os tidos como "desajustados",  descartáveis,  "errados", podemos pressionar esse sistema opressor e conseguir vitórias importantes.


Então hoje escrevo um apelo às pessoas que não se sentem adaptadas, que sofrem uma ou mais opressão em suas vidas, que se unam a nós. Desistir e abaixar a cabeça não é o melhor caminho, mudanças acontecem o tempo todo, paradigmas são transformadas, a História nos mostra que  Revoluções são possíveis!


Estou cansada de ser tratada como uma aberração porque não me reduzo a um robô do sistema, não acato todas as suas normas e regras, questiono o que acho errado e luto pelo que considero certo. Vocês não??

Sharlenn

domingo, 29 de junho de 2014

Ruptura com a monogamia


Muitas pessoas, ao se perceberem não monogâmicas, entram em crise. Se sentem culpadas, erradas, excluídas, sozinhas. Tendem a pensar que são os únicos indivíduos  no mundo que não conseguiram se adaptar aos padrões considerados naturais e, portanto, "normais" da espécie humana; que devem ter algum distúrbio, doença ou algo de muito ruim, imoral.

 Todo esse sofrimento é causado por vivermos em uma sociedade em que a instituição da monogamia  foi estabelecida como o único modelo correto e aceitável de relacionamento afetivo/sexual. Seguindo por esse raciocínio, qualquer pensamento e/ou atitude que fuja da prática sexual consolidada pela moral vigente (hetero, apenas entre duas pessoas, realizada com "amor" e,  preferencialmente dentro de um relacionamento afetivo estável e validado socialmente), é hedionda, repulsiva, vergonhosa, “coisa de gente pervertida”,  que não merece respeito ou consideração.

Assim, não é  de se admirar que vários indivíduos que não se identificam com a monogamia, continuem insistindo em buscar relacionamentos nesse molde. Escolhem a mentira, a máscara da “normalidade” e se esforçam para estancar o conflito de não se sentirem adequados ao mesmo tempo que lutam por tal adequação – fonte de enorme sofrimento subjetivo.

  
Contudo, alguns de nós começamos a compreender que a única alternativa que temos para evitar tal sofrimento é conquistar aceitação e respeito (quem sabe compreensão), é deixar para trás a tortura perpétua de não ser o que se é, ou seja, romper com a “normalidade”, assumir uma identidade não monogâmica, lutar pelo direito de sentir, desejar, se relacionar com quantas pessoas  quiser, mesmo que tal ruptura com os padrões social e moralmente estabelecidos signifique viver à margem da sociedade.


Sharlenn

sábado, 31 de maio de 2014

Ovelha Negra


Não é fácil ser tão diferente dos padrões estabelecidos pela sociedade. Hoje, nao sofro por uma dualidade subjetiva, sinto-me bem sendo quem sou – ateia, socialista, rockeira, poli, bissexual, pretensa filósofa e escritora. Mas percebo que sou uma bizarrice perante os outros... Isso nao deveria me incomodar, mas fui condicionada a tentar agradar, a ser aceita (por mais que nunca tenha sido). Às vezes odeio não conseguir ser “normal”, às vezes gostaria de ser burra, tapada, acomodada, alienada... viver como a maioria vive, pelo menos estaria com minha filha...

Mas nao há volta...estou seguindo o caminho de “se tornar a ser o que se é”. Luto publicamente, politicamente em defesa do Poliamor, contra toda forma de opressão, contra o dogmatismo religioso, filosófico...ainda assim, me sinto uma completa fracassada! Não consigo fazer muita coisa e o que faço tem tão pouco reflexo na sociedade...

Esse mundo é insano! As pessoas vivem achando que são livres!!! Mas nao conseguem se libertar nem em suas mentes! Completamente manipuladas pela ideologia burguesa... E eu vejo tudo isso, olho pra mim, minha impotência, vejo o quarto vazio da minha filha, penso nos 31 anos de vida desperdiçados.. e choro!

Quando desanimo, as pessoas mais próximas me reafirmam que o mundo precisa de pessoas como eu, com coragem, força, inteligência, conhecimento e boa-fé... Mas cadê tudo isso em mim que eu não vejo? Que coragem é essa que me paralisa quando preciso agir, quando preciso gritar?!

Para que me serve a inteligência e o conhecimento se não consigo transformá-los em nada de útil? Não consigo nem ao menos ser a professora que já fui um dia...não acredito mais que posso convencer ninguém através da razão...se a estrutura social nao mudar, nao há solução...nem pra mim, nem pra ninguém.

Está tudo errado...mas quem se importa?!

Nem todas as escolhas são fáceis, principalmente aquelas que vão contra a corrente, mas ou  é viver tendo consciência das consequencias de ser "diferente"(assumindo os riscos e responsabilidades dessa escolha) numa sociedade de "iguais", ou fazer lobotomia :P

Mas nisso tudo, uma coisa é certa, o Rafael (meu "polimarido") foi/ é a pessoa mais companheira e dedicada que conheci na vida! Sei que para muita gente esses conceitos parecem incompatíveis: não exclusividade  afetiva/ sexual X amor e companheirismo... Desolador o que o moralismo vigente consegue fazer com a cabeça das pessoas...

Mas é esse mesmo Rafael, poliamorista, que não me pede exclusividade nenhuma, o único que está todo esse tempo ao meu lado, me levantando quando caio, enxugando minhas lágrimas, me ajudando a continuar... 


Sharlenn 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A particularidade dos amores


Atualmente eu vivo alguns amores. Todxs são muito importantes para mim e fazem parte da minha vida, porém, obviamente, como são pessoas diferentes, o que sinto e vivo com cada uma delas é próprio de cada relacionamento: a organicidade é diferente, as compatibilidades, as afinidades, o sexo (ou falta dele), o nível de intimidade, etc.

Percebo também que nem sempre amo com a mesma intensidade que me amam e vice-versa – mas acho que isso não é um problema – o que importa, ao meu ver, deve ser se o grau de satisfação que os parceiros sentem na relação é suficiente para os mesmos, e não a comparação entre as diferentes relações.

E eu acho incrivelmente positiva a possibilidade da diversidade de relações! Gosto de meninas e meninos (by Legião :P), de pessoas com idades muito diferentes entre si, experiências de vida muito peculiares...não teria sentido, e nem acho produtivo, uniformizar todas elas e nem os sentimentos que as mesmas me proporcionam.

Da mesma forma, nao crio expectativas de que os indivíduos com quem me relaciono irão me complementar nas diversas áreas de interesse que possuo. Na verdade, o que acontece é que “naturalmente” nos aproximamos de pessoas que apresentam similaridades conosco (do mesmo modo como acontece nas amizades). Algumas pessoas vão ter mais compatibilidade do que outras, mas eu nao preciso escolher entre elas! Todas têm características que me encantam, que nos aproximam e nos realizam mutuamente.



Quando nos desvencilhamos da idéia do amor romântico, um mundo de possibilidades se apresenta! Ninguém é e nem precisa ser perfeito, nao há um único amor “verdadeiro” para a vida toda! E é muito mais provável que, sem a exclusividade imposta pela monogamia, ao longo da vida, encontremos pessoas que, de fato, nos enriqueçam, contribuam para nossa felicidade e nosso desenvolvimento enquanto seres humanos.

Quanto mais pessoas se preocuparem verdadeiramente conosco, quanto mais laços criarmos, quanto mais nos doarmos, mais chances teremos de construir uma existência e um mundo que valham a pena.

Sharlenn

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A caixa da mononormatividade

Ninguém deveria ser OBRIGADO a amar uma só pessoa por vez, ter relacionamentos seriados (não concomitantes). A imposição do amor exclusivo é tortura afetiva!

Não queremos impor o Poliamor a ninguém, pois AMOR não se impõe, se conquista. Mas a marginalização que sofremos por amar... simplesmente amar, de forma honesta e consensual mais de uma pessoa, é simplesmente um absurdo, um dogma, um PRECONCEITO!

Então não venham me dizer que o que eu vivo é errado. Errado é dizer que o que eu sinto não é amor só porque você não entende, porque não consegue sair da sua caixa mononormativa e perceber que o mundo é muito mais colorido do que a dualidade preto/branco que lhe ensinaram a vida inteira.

Saia da caverna ou permaneça nela, a escolha é sua. Mas não apedreje quem teve a coragem de se aventurar em campo aberto, de ousar, de queimar o cabresto social.


Sharlenn

terça-feira, 20 de maio de 2014

O dogma da "normalidade"


O que vem a ser um dogma?

Muitos utilizam essa palavra sem o pleno conhecimento de seu significado. Bem, segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, temos como definição: " s.m. Teologia. Aspecto, item particular, mais importante de uma doutrina religiosa que se apresenta como algo indubitável ou inquestionável. 
P.ext. Qualquer discurso ou ideologia de teor inquestionável. 
P.ext. Causa delimitada; opinião estabelecida; preceito. 
(Etm. do grego: dógma.atos, pelo latim: dogma.atis)". 

Já a questão da normalidade é mais complexa e vamos nos utilizar da conceituação de alguns autores  que se debruçaram sobre o tema:

"Segundo Davis (apud Silva, 1997, p. 8), a noção de norma e normalidade é uma invenção relativamente recente. Embora, como diz Davis, a tendência a fazer comparações seja muito antiga, a gênese da idéia de norma e normalidade localiza-se nos séculos XVIII e XIX, em conexão com o processo de industrialização e de transformação capitalista. Desenvolveu-se aí, em conexão com noções sobre nacionalidade, raça, gênero, criminalidade e orientação sexual, um conjunto de práticas e discursos centrados ao redor da noção de norma e de normalidade. [...] Nesse sentido, a norma se estabelece a partir do controle, da regulação da população. O interesse em uma população saudável, perfeita, normal, incide em uma questão mercantilista de produção, ou seja, sujeitos governados e adestrados para a produção e o consumo."(http://www.pedagobrasil.com.br/educacaoespecial/inclusaoexclusao.htm)


"Aristóteles afirmava que o homem é um animal político (“Homo zoon politikon”), o homem é naturalmente gregário. Diferentes grupos criam hábitos diversos, dependendo tanto do ambiente quanto do fator histórico ou da sua concepção de rerum natura (do latim “a natureza das coisas"). Se desprender-se dos hábitos do seu grupo constituísse anormalidade, estaríamos determinando uma espécie de súplica por estagnação. As normas seriam invariáveis, impossíveis de qualquer mobilidade ou modificação. Nosso modo de viver, ao contrário, é um constante reavaliar do que temos feito e do que podemos fazer, de forma que as normas, leis, valores morais e padrões estéticos modificam-se com certa frequência no transcorrer do tempo. Nossa própria concepção de normal é variável." (http://tenhaumatoalha.wordpress.com/2011/12/12/o-ideal-normalizador-e-as-muitas-visoes-sobre-a-normalidade/)

Dessa forma, a partir dos conceitos esclarecidos acima, podemos entender o dogma da normalidade seria um discurso inquestionável sobre algo que está em constante mudança e contradição e, que não é, de forma alguma natural e sim, uma invenção, adaptação que cada cultura e época constrói para adequar os indivíduos aos interesses dos setores dominantes.

E nesse sentido que estamos nos propondo a refletir sobre o conceito do dogma da normalidade em nossa sociedade. Primeiro é interessante questionar quem estabeleceu no ocidente contemporâneo o que é e o que não é  NORMAL. Quais os interesses em declarar que certos indivíduos podem ser considerados sãos e quais devem ser considerados insanos/loucos/desajustados?

Como já citado por Davis o processo de industrialização e a transformação (e consolidação) capitalista  são determinantes para tal classificação de normalidade. É normal o que é útil à engrenagem capitalista. Ou seja, as pessoas precisam ter pensamentos, valores e comportamentos que coincidam com os interesses da burguesia. A ideologia burguesa, incluindo a grande mídia,  é  grande responsável por veicular esses pensamentos/valores/comportamentos entendidos pelo senso comum como "normais". Assim temos alguns exemplos bastante óbvios do que estamos tratando: é normal menina gostar de rosa e brincar de boneca (o contrário não); é normal que os adolescentes do sexo masculino possam ficar com várias meninas (o contrário não); é normal que todos se casem com UMA pessoa do sexo oposto (o contrário não); que tenham filhos herdeiros; que formem famílias tradicionais e nucleares (o contrário não); que as classes trabalhadores sejam exploradas para gerar lucro às classes dominantes - trabalhando 8 horas por dia ou mais e ganhando em média algo próximo de um salário mínimo; é normal que as profissões e salários mais valorizados sejam aqueles condizentes com o aumento da economia capitalista. Ou seja, as pessoas precisam seguir uma trajetória de vida que se encaixe com os interesses burgueses.

Mas o que acontece quando um indivíduo foge a esses padrões? estigmatização, patologização, discriminação, perseguição, exclusão, punição, criminalização.

E é dessa forma que em nossa sociedade é bem mais aceita uma família tradicional desestabilizada do que uma família baseada em modelos alternativos; mais aceito um casal hetero sem condições psicológicas e financeiras para criar uma criança do que um casal homossexual com as melhores condições possíveis; mais aceito um homem que traia sua esposa do que aceite ter com ela uma relação aberta; mais aceito um casamento monogâmico por interesses financeiros ou fundamentados em condições patológicas de dependência, ciúme, insegurança, possessividade e machismo do que um arranjo poliamoroso realizador e potencializador para todos os envolvidos.


Sendo assim, proponho que repensemos os conceitos de normalidade: “O ‘anormal’ de uma sociedade pode ser apenas alguém distanciado de sua cultura de origem, ou uma voz dissidente do poder instituído. O que em outras épocas era considerado loucura, hoje pode ser padrão de normalidade. O que era considerado um absurdo nos padrões da ‘norma’, poderia ser uma grande descoberta, algo capaz de revolucionar a sociedade.” (AIUB, 2011.)

Sharlenn